sexta-feira, 7 de julho de 2017

Concrecoisa Aldravia IV


poeira
ajuntada
é
memória
de
alguém


No começo Ele era grão.

Depois Eles viraram grãos.

E os grãos foram transformados e retransformados.

Até ganhar a forma de poeira.

Com o vento, a poeira ganhou destino.

Aqui, ali e acolá.

Até um dia acumular no dorso do tempo.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Concrecoisa Aldravia III


cada
um
vive
no
seu
quadrado

Blizeu mora, desde sempre, numa gruta no sertão baiano.

Certa feita, ao ser entrevistado pelo jornalista Zaiam, conhecido operário das letras da Gazeta Mundão de Deus, afirmou que “o segredo para ser feliz está dentro do quadrado que cada um escolheu ter”.

E completou, numa outra perspectiva, mostrando que "a prisão é o quadrado do infeliz".

A reportagem bombou, fez Zaiam ganhar o Prêmio Esso e deixou Blizeu conhecido nacionalmente.

Tirlina, assinante da Gazeta Mundão de Deus, gostou mais que demais da reportagem sobre o quadrado da felicidade.

Passado um mês, estava ela morando num apartamento em Barcelona.

E o seu quadrado da felicidade foi completado com as pinturas abstratas, todas cubistas, de César Rasec.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Concrecoisa Aldravia II


rascunho
da
vida
engana
destino
final

Liduco viveu no mundo da fantasia ao caminhar na criminalidade.

Ele acreditava que ia se dar bem para o resto da vida.

Dizia para os comparsas que o Brasil espelhava impunidade por meio das instituições.

E mostrava esse entendimento nos noticiários das rádios, dos jornais, das revistas, das emissoras de televisão e dos sites.

Para Liduco, o Brasil sempre foi um rascunho de nação, um país que se afastava cada vez mais da civilização.

Por isso, ele não respeitava ninguém.

Velhos, crianças, mulheres, operários e religiosos foram suas principais vítimas.

Por roubar pobres, era chamado de Papatudo.

Certo dia, encontrou pelo caminho uma bala certeira na cabeça.

Liduco morreu na hora.

No dia seguinte era dado estatístico da violência no Brasil.

E sua vida não passou de um rascunho mal planejado.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Concrecoisa Aldravia I


aniversário...
lembranças
deixadas
nas
velas
apagadas

Essas foram as palavras de Zineltom, que completava 100 anos.

Feliz com o centenário, ele olhava em cada vela uma camada da memória.

O seu sopro era uma espécie de renascimento.

E a luz que acabava de apagar era a certeza do prazer de viver.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Concrecoisa E a colher?


Dorinelson era glutão.

O seu garfo parecia uma pá de escavadeira.

Cada bocada significava um prazer sem fim.

Biritel, amigo de infância, era o cara da faca.

Como o seu pai foi açougueiro em Copecarinhanha, essa habilidade de cortar foi preservada.

Mirtiteia, prima de Biritel, era a mulher da colher.

Ela casou com Dorinelson.

Na noite de núpcias, Mirtiteia disse ao marido que a brincadeira ia começar se ele fosse capaz de tomar um prato de sopa com o seu garfo de aço.

Desesperado, ele só foi entender que existe colher no mundo quando viu a sopa esfriar.

E Mirtiteia já dormia que nem uma criança.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Concrecoisa Cabeça


Cada um sabe o que tem dentro da cabeça.

Será?

Talvez não.

Ninguém sabe o que a cabeça esconde.

Perilza, por exemplo, perdeu a cabeça por causa de um amor secreto.

Medalvina, por sua vez, perdeu a cabaça com o marido cachaceiro.

As duas eram irmãs e tinham, antes dos acontecimentos, a cabeça no lugar.

Perilza viveu a vida toda na roça.

Medalvina foi para a cidade grande depois do casamento com Bazolito.

As duas voltaram a morar juntas, na roça, depois de décadas.

Agora estavam sozinhas.

Nenhuma perdeu a cabeça por causa da estranheza da outra.

E as duas diziam para os vizinhos que a cabeça é a circunstância de cada um. 

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Concrecoisa Vida excitada


Birigó era revolucionário.

Começou sua atuação política na extrema esquerda, depois foi para o centro e em seguida para a direita.

Zirino, seu irmão, era pacato.

De uma hora para outra ingressou num movimento social de direita, depois migrou para o centro e acabou atuando numa célula de extrema esquerda.

Em casa, os dois diziam para mamãe Donetita que a vida era uma experiência de transformação que começa lagarta, vira crisálida e morre em borboleta.

Dona Donetita riu muito da militância política dos filhos e deixou cada um de queixo caído quando confessou que era a puta mais cobiçada do bordel da Vila dos Prazeres.

O segredo da vida, dizia hoje a velhinha, era a excitação da alcova.

Já que a mãe estava falando de um passado jamais revelado, Birigó e Zirino quiseram saber como ela se comportava na política.

– Meus filhos, minha política é fazer gostoso, não importa se é esquerda, centro ou direita. No fundo de tudo isso, eu sei que todos vivem em busca da excitação do poder e o meu poder é a política do prazer.

No dia seguinte, Birigó e Zirino ingressaram no Partido Anarquista.   

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Concrecoisa Rua-morada


O frio chegou mais cedo.

Um cantinho qualquer da rua era a morada que precisava.

Eu não tenho bens materiais.

Mas tenho dignidade.

A barriga pede um pedaço de pão.

O outro que caminha ao meu redor é a minha solidão.

Eu sou a multidão e não sou ninguém, para o outro.

Eu sou a rua.

Eu sou Cida.

A rua é Dão.

Eu na rua sou invisível.

Uma sombra da sociedade.

Me casei com a rua.

Eu-rua.

Cida-Dão. 

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Concrecoisa Medo


Siriel era medroso, desde pequenino.

Velhinho, contava rindo pelos cotovelos que tinha até medo do medo.

E foi escavando as narrativas soterradas nas camadas da memória de mais de nove décadas que ele acabou ficando sem medo.

E dizia bem alto, gozando com a cara dos outros...

– Zulina era da rua e tinha medo da rua.

– O policial Miridó corria do ladrão, tudo por causa do medo de tomar um balaço na fuça.

– A violência deixou Bitutu com medo multiplicado.

– O padre Lionilton tinha medo do falso cristão.

– Pertonino, que morava em situação de rua, fugiu para o mato, isso porque ficou com medo da cidade grande.

– Jupinaraci, a decana do bordel mais visitado da cidade, tinha medo de amar o cliente.

– Zé do Canhão, especialista em armamento, tinha medo de estourar uma guerra civil no Brasil.

– O cauteloso Galitanizo tinha medo de arriscar na vida.

– Viciado em analgésico, o médico Diritanoel acabou morrendo de dor.

Para Siriel, o medo de sofrer era o despertador para estancar o medo em si.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Concrecoisa Alone


Zigmon estava com 65 anos e morava sozinho numa ilha perdida na imensidão do oceano Atlântico.

Certo dia, ele encontrou uma garrafa boiando na praia.

Dentro, uma mensagem dizia:

Eu estou sozinho
Mas gostaria que você estivesse aqui
Você é mais do que uma mulher
Você é o amor total

Repentinamente, Zigmon entrou em estado de riso.

Aquela mensagem, incrivelmente, era dele para o primeiro amor de sua vida.

Foi jogada no mar quando ele estava com 15 anos e de passagem por Miyako, no Japão.

Achar aquela garrafa fez Zigmon pensar que ficar sozinho só é possível quando a alma deixa o corpo.