sexta-feira, 10 de abril de 2020

Concrecoisa Liberdar


A liberdade estava diante dele.

Mas ele não enxergava.

– Onde está a liberdade?

Começou a perguntar.

Dos religiosos, não obteve resposta precisa.

Das autoridades, pior ainda. Elas só queriam exercer o poder.

E ficou perguntando, perguntando...

Certo dia, cansado da peregrinação, perguntou para si mesmo:

– Onde está a liberdade?

Nesse instante, sentiu o vento lamber seu corpo.

Ao mesmo tempo, viu uma nuvem passar.

Encontrou a resposta!

A liberdade é o ar, que é o vento em movimento.

E a nuvem que passava era ele e agora é você.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Concrecoisa Medo do amanhã


Um passarinho saiu do ninho em voo rasante nos primeiros raios de sol do inverno.

Sua missão era pegar víveres presenteados pela natureza para os cinco filhotes.

Os filhotes cresceram fortes e ganharam o mundo.

No ano seguinte, lá estava o mesmo passarinho cumprindo uma nova missão, agora com quatro filhotes.

Um observador, da janela do seu apartamento, anotava aquela rotina marcada pelo vai e vem incansável.

E de tanto assistir a celebração da sobrevivência, escreveu:

"O tempo conspira
e faz tremer
quem teme
a verdade"

Sem medo de sair do ninho para alimentar os filhotes, aquele passarinho tinha encarnado, sem temer, o espírito das águias.

E o observador disse para o Deus tempo:

– Viva o passarinho humano que não tem medo do novo coronavírus!

sexta-feira, 27 de março de 2020

Concrecoisa Sabão de amor


Uma gota de ódio pingou na carne

Fez morada na memória

E acabou virando nódoa

Outras gotas pingaram durante a vida

E mais nódoas ficaram impregnadas

Um dia, um sabão especial apareceu para lavar o ódio

Conseguiu!

Foi o milagre do sabão de amor

sexta-feira, 20 de março de 2020

Concrecoisa Colírio de luz


O cego de razão escorregou numa casca de banana deixada pelo destino.

A queda foi feia.

Os joelhos ralaram no chão de barro.

Um velhinho ajudou-o a se levantar.

E ele foi embora em silêncio.

O tempo passou e o cego de razão escorregou novamente.

Os joelhos voltaram a ralar, agora no asfalto.

Uma bela mulher ajudou-o a se levantar.

E ele foi embora novamente em silêncio.

Vieram outras quedas e as feridas dos joelhos não curavam.

Ele já não tinha mais ninguém para ajudá-lo a se levantar.

Assim tocou a vida sem aprender que para cada queda existe um colírio de luz que não deixa a razão cega.

Foi enterrado sem as rótulas.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Concrecoisa Nem pior nem melhor


A linha curva vivia arquitetando, recriando o mundo.

Seu maior prazer era reproduzir com beleza descomunal as formas femininas.

E a linha reta não ficava atrás.

O seu prazer era conduzir o olhar de todos ao horizonte, onde reinava.

Um dia, a linha reta brincou de ser linha curva.

E vice-versa.

Depois da brincadeira, uma disse para a outra o que sentia.

E recebeu como resposta o mesmo eco sentimental, que dizia:

– O que você é nem me faria ficar melhor nem pior do que sou.

No infinito, os pontos riram sem parar da brincadeira.

E até hoje esse riso é visto em forma de luz, piscando na escuridão da noite.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Concrecoisa Desejo


Desejou viver eternamente.

Não conseguiu.

Desejou ficar rico.

Não conseguiu.

Desejou ser famoso.

Não conseguiu.

Desejou conhecer todos os países do mundo.

Não conseguiu.

Desejou ter poder.

Não conseguiu.

Aquela pessoa sempre desejava, antes de dormir.

E acordava sem desejo alguma, até o anoitecer.

O que era já estava ali impregnado na pele, na carne, nos ossos, nos pelos, na cartilagem e nos cabelos.

Morreu sendo o que foi: resto do desejo do destino.

Assim veio à toa.

Assim vai à toa.

Assim é o desejo.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Concrecoisa Certeza


O porvir está ali, à frente do presente. 

Isso é uma certeza.

A incerteza é a única certeza que temos ao caminhar em direção ao porvir. 

Isso é uma certeza.

A vida é uma luz guiada pelo talvez.

Isso é uma certeza.

Acontecimentos da vida podem ser bons ou ruins.

Isso é uma certeza.

Pois ninguém sabe das consequências de um acontecimento.

Isso é uma certeza.

Talvez é uma certeza na incerteza.

E assim vamos vivendo, com certeza.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Concrecoisa Ao redor


Cego estava.

Cego ficava.

Mesmo assim, 

a coisa mais linda da vida,

ao redor,

mostrava-se.

Esperou pelo olhar.

No tempo jogado no espaço vazio.

Perdeu tempo.

Pois cego estava.

Cego ficava.

Assim morreu,

sem ver ao redor.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Concrecoisa Alvo


Ele estava sempre por cima, desde criança, e achava que nunca ia sair de onde estava.

Considerava-se o melhor de todos quando olhava ao redor.

Ninguém tinha razão.

Como estava sempre por cima, adorava ordenar.

Mas o tempo foi deslocando as forças que exercem o poder.

E ele virou alvo dos que estavam por baixo.

Acertaram na mosca.

Num certo dia, quando acordou para a nova realidade, viu que já estava por baixo.

O baque foi grande.

Era tarde para uma reviravolta.

Por baixo, sem prestígio, aprendeu que, quem fica por cima, é sempre um alvo preferido.

Desde então, passou a viver triste, desolado, cultivando a depressão.

Por baixo estava e embaixo da terra foi esquecido rapidamente.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Concrecoisa Deslembrança


O esquecimento chegou.

E ficou remoendo, remoendo, remoendo...

E foi ficando, ficando, ficando...

O tempo passando, passando, passando...

Não lembrou quem era.

E nem das outras pessoas.

Aquela raiva pulsante, por besteira, minguou.

De tanto esquecer, esquecer, esquecer...

Encontrou a felicidade.

E atingiu a iluminação.