quinta-feira, 29 de julho de 2021

Concrecoisa Mistério


O mistério enlaçou o infinito do mar, no começo de tudo.

Um pescador ficou sabendo dessa história numa mensagem do vento.

Ao deitar, pensou em ter um tiquinho desse mistério.

A ideia era guardar até o último dia de vida.

No dia seguinte, ele acordou bem cedinho e pegou uma gota d’água do mar encantado.

E guardou num vidrinho hermeticamente fechado.

Os anos passaram…

Todos os dias, antes de dormir, ele olhava para aquela gotinha e rezava.

Incrivelmente, o volume aumentava lentamente depois de cada oração.

Quando o vidrinho encheu, depois de muitos anos de reza e fé, ele sentiu o prazer jamais experimentado.

Então ele foi ao mar e devolveu aquela água multiplicada, uma gotinha do passado.

Nesse mesmo dia, ao deitar, sentiu a libertação d’alma.

O tiquinho do mar havia se transformado na sua vida eterna.

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Concrecoisa Coragem indômita

Aquela pessoa dizia que tinha coragem.

E que tudo era fácil.

Sobre o amor, achava algo simples, como trocar de roupa.

Certo dia, apareceu um desafio.

Encontrar a cara-metade e amar de verdade.

Então, a coragem que dizia ter foi embora.

E o amor foi vestir uma outra pessoa.

Aquela pessoa que achava tudo fácil já não tinha algo que é do amor verdadeiro, que é ter coragem indômita.

E o amor seguiu a sua jornada.

E continua a desafiar quem quer que seja.

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Concrecoisa Tentativa

 

Viver é tentar.

E quanto mais o ser humano tenta, mais tentativas vão pintando no seu horizonte.

Essa busca fica no mesmo lugar quando as tentativas deixam a vida passar.

Morreu tentando...


quinta-feira, 8 de julho de 2021

Concrecoisa Debaixo

 

Debaixo de alguma coisa tem sempre uma outra coisa.

Tem grãos de areia debaixo de uma pedra.

Tem água debaixo da embarcação.

Tem carne debaixo da pele.

Tem loucura debaixo da mente.

Tem papel debaixo da letra impressa de um livro.

Tem rotina debaixo da rotina.

Tem poeira debaixo do ar.

Tem mistério debaixo de tudo que não foi explicado.

Tem sonho debaixo do sono.

E debaixo da vida eterna tem a dúvida.

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Concrecoisa Peso da dor


O peso da dor rodeia e penetra nas pessoas.

Algumas não têm mais essa dor.

Outras carregam até a morte.

Perguntei para uma dessas pessoas que conseguiu se livrar:

– Como foi possível se libertar e viver feliz?

Ela me disse:

– Joguei no abismo.

– Onde estava o abismo?, perguntei novamente.

E a resposta foi precisa:

– Ele fica dentro de cada um e muitas vezes a pessoa não sabe que esse abismo existe.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Concrecoisa Sorriso Misterioso

 

Uma pedra procura um sorriso perdido num rio.

A água diz que tem.

A pedra pede uma prova.

A água prontamente atende.

E começa a lamber as suas faces.

As marcas do sorriso vão aparecendo.

Muitas delas são misteriosas.

– Quem descobrir um sorriso mistério numa pedra será feliz para sempre, diz a água.

Tá vendo?

Se não viu, não desista.

As pedras estão por todos os caminhos.

E a felicidade também!

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Concrecoisa Verdade de cada um


– Eu tenho a verdade!

Foi o que falou uma pessoa para os seus seguidores.

– Eu também tenho a verdade!

Foi o que falou uma outra pessoa para os seus seguidores.

– Nós transmitimos a verdade!

Foi o que disse um apresentador de uma emissora de televisão.

– A verdade é transmitida por aqui!

Foi o que afirmou um apresentador de uma outra emissora de televisão.

– A lei é a verdade!

Foi o que escreveu um togado numa sentença.

– A mentira vira verdade quando a narrativa se veste de verdade.

Foi o que falou para um pai, cidadão comum, para os seus filhos. Ele disse em seguida que deseja apenas viver o mundo real e ser feliz.

Assim, cada um com a sua verdade construiu o império da narrativa com o que lhe convém.

Foi assim que a verdade foi desvirtuada e só era o que de fato significava num empoeirado dicionário do passado. 

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Concrecoisa Confissão

 

Choveu...

E algumas gotas se reuniram no vidro d’uma janela.

Outras foram chupadas pelo chão.

E teve as que caíram num córrego para depois abraçar o mar.

Ali no vidro, antes de evaporar, aquelas gotas da chuva começaram a conversar.

Em tom de confissão, falaram de suas angústias, dos momentos de alegria e sobre a esperança.

Muitas diziam que “evaporar é o mesmo que morrer para a vida eterna”.

As mais céticas diziam que “evaporar é o caminho para deixar de ser o que é e depois acabar em nada”.

Teve uma que falou do amor.

Chegou até a revelar que “estava apaixonada pelo calor”.

As que riram não sabiam que o fogo do amor é tudo que o ser humano precisa para viver feliz.

E quando o calor bateu, ela e-va-po-rou e foi morar nas nuvens, sempre rindo e sempre cantando.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Concrecoisa Castigo

 

O chão ficou marcado pela ferrugem, resultado da corrosão do prego de ferro em presença do oxigênio atmosférico e em meio úmido.

A marca é apenas uma consequência da oxidação.

Essa oxidação, na natureza, traz outras marcas.

Tudo por conta dos efeitos naturais da ação do tempo na vida e nos materiais.

Um sábio, certa feita, me falou que o vento gosta de tramar com o tempo em oxidação desconcertante.

Como prova material, mostrou um monte de barro que erodiu até virar poeira.

Depois disse que a luz e a água também entram na trama do tempo, sempre agindo com naturalidade numa outra forma de oxidação desconcertante.

Ele me fez ver que “a marca no chão mostra que o tempo castiga”.

Estou esperando o sábio voltar para saber mais sobre a oxidação da personalidade humana.

A marca indelével na história, não mais no chão, mostrará nas palavras ditas e não ditas quem são os canalhas, os traidores, os bandidos, os enganadores e os verdadeiros heróis.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Concrecoisa Tela-trama

 


A tela da TV mostra a trama.

Mostra a teia.

Mostra a textura.

Mostra tudo.

E mostra que treme quando falta a grana.

A tela-trama-teia-textura é pura mistificação das massas pela ideologia do seu dono.

E quando a grana chega, a tela se ajoelha, fica em silêncio e esquece tudo aquilo que mostrou.