Viveu sem ar
Até nascer
Quando foi apresentado ao mundo
O ar doeu, ao beijar, os seus pulmões
Desde então
Tudo se resumiu em
Respirar
Expirar
Respirar
Expirar
Pois tudo virou ar
Um ar cataventado
E uma mostra que
Se é ar
É vivenciar
Concrecoisa é imagem, é palavra, é ideia, é filosofia, é ciência, é César Rasec, é qualquer coisa. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é a concrecoisa. rasec1963@gmail.com Direitos reservados e protegidos por lei. Uso de imagem e texto só com a autorização, por escrito, deste autor.
Viveu sem ar
Até nascer
Quando foi apresentado ao mundo
O ar doeu, ao beijar, os seus pulmões
Desde então
Tudo se resumiu em
Respirar
Expirar
Respirar
Expirar
Pois tudo virou ar
Um ar cataventado
E uma mostra que
Se é ar
É vivenciar
O caminho estava traçado desde o começo de tudo.
Todos seguiam felizes.
Alguém pegou uma outra rota.
Foi pelo descaminho.
Chegou num lugar desconhecido.
Viu que aquele lugar era bom.
Ficou ali por anos até caminhar pelo velho caminho.
E foi seguindo, seguindo...
Até chegar onde deveria ter chegado.
Viu que ali era pior do que o outro lugar.
Sentiu que o descaminho foi a sua alegria perdida.
Tudo é lixo
E o que não é
Um dia será.
Basta ver
A caminhada
Do mal
Na história
Da humanidade.
O lixo
Não se cansa
De ser produzido.
O sereno caiu
Molhou o chão
E aquela pessoa serena
Que assistiu
Em sossego
Celebrou
Porque o sereno
Encontrou para amar
Um ser sereno
E o sereno caiu novamente
Para nunca deixar de molhar
A esperança
Um pescador ficou sabendo dessa história numa mensagem do vento.
Ao deitar, pensou em ter um tiquinho desse mistério.
A ideia era guardar até o último dia de vida.
No dia seguinte, ele acordou bem cedinho e pegou uma gota d’água do mar encantado.
E guardou num vidrinho hermeticamente fechado.
Os anos passaram…
Todos os dias, antes de dormir, ele olhava para aquela gotinha e rezava.
Incrivelmente, o volume aumentava lentamente depois de cada oração.
Quando o vidrinho encheu, depois de muitos anos de reza e fé, ele sentiu o prazer jamais experimentado.
Então ele foi ao mar e devolveu aquela água multiplicada, uma gotinha do passado.
Nesse mesmo dia, ao deitar, sentiu a libertação d’alma.
O tiquinho do mar havia se transformado na sua vida eterna.
Aquela pessoa dizia que tinha coragem.
E que tudo era fácil.
Sobre o amor, achava algo simples, como trocar de roupa.
Certo dia, apareceu um desafio.
Encontrar a cara-metade e amar de verdade.
Então, a coragem que dizia ter foi embora.
E o amor foi vestir uma outra pessoa.
Aquela pessoa que achava tudo fácil já não tinha algo que é do amor verdadeiro, que é ter coragem indômita.
E o amor seguiu a sua jornada.
E continua a desafiar quem quer que seja.
Viver é tentar.
E quanto mais o ser humano tenta, mais tentativas vão pintando no seu horizonte.
Essa busca fica no mesmo lugar quando as tentativas deixam a vida passar.
Morreu tentando...
Debaixo de alguma coisa tem sempre uma outra coisa.
Tem grãos de areia debaixo de uma pedra.
Tem água debaixo da embarcação.
Tem carne debaixo da pele.
Tem loucura debaixo da mente.
Tem papel debaixo da letra impressa de um livro.
Tem rotina debaixo da rotina.
Tem poeira debaixo do ar.
Tem mistério debaixo de tudo que não foi explicado.
Tem sonho debaixo do sono.
E debaixo da vida eterna tem a dúvida.
O peso da dor rodeia e penetra nas pessoas.
Algumas não têm mais essa dor.
Outras carregam até a morte.
Perguntei para uma dessas pessoas que conseguiu se livrar:
– Como foi possível se libertar e viver feliz?
Ela me disse:
– Joguei no abismo.
– Onde estava o abismo?, perguntei novamente.
E a resposta foi precisa:
– Ele fica dentro de cada um e muitas vezes a pessoa não sabe que esse abismo existe.
Uma pedra procura um sorriso perdido num rio.
A água diz que tem.
A pedra pede uma prova.
A água prontamente atende.
E começa a lamber as suas faces.
As marcas do sorriso vão aparecendo.
Muitas delas são misteriosas.
– Quem descobrir um sorriso mistério numa pedra será feliz para sempre, diz a água.
Tá vendo?
Se não viu, não desista.
As pedras estão por todos os caminhos.
E a felicidade também!