sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Concrecoisa Viveres


Viver é uma arte que exige muita alquimia.
Sofremos em diversas situações da vida.
Quando alguém morre, por exemplo, um vazio se estabelece em quem perde este alguém.
Para quem gosta de futebol, o vazio foi perder o jogador Sócrates.
Fiquei por alguns instantes meditando sobre o sentido da perda.
Na verdade, morre quem fica vivo.
Parece algo contraditório, mas não é!
É o mesmo que dizer: quem nasce perde a vida.
O vivo morre, aos poucos, porque sofre com a perda de quem morreu.
Esta morte aos poucos é imperceptível aos olhos da vida.
Por esta e outras razões faço da Concrecoisa Viveres uma pequena homenagem a Sócrates, uma homenagem à vida.
Assim, uso as cores que remetem ao Pavilhão Nacional, cores de Sócrates Brasileiro.
E o seu calcanhar é a régua que calcula o passe numa aritmética dos grandes gênios da bola.
Morrer é isto e viver é saber morrer sem sofrer em demasia.
No fim do jogo da vida, o gol permanece sendo a coisa consagradora. 
Lá vai a bola da vida a rolar...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Concrecoisa Razão Turva



Quando alguém sem razão entende que a sua razão é soberana, a essência da palavra razão se turva.
Só existe, nesta pessoa, o seu umbigo, a sua verdade.
Neste instante, o egoísmo fica terrível.
Ele corrói tudo aquilo que não faz parte de sua coisa.
A Concrecoisa Razão Turva mostra um pouco disso.
Três cores definem o fundo no jogo das palavras.
Cada cor tem a sua razão...
Porém, aqui, a razão é dividida.
O todo vira consenso e o egoísmo desaparece.
Como tudo tem um fim.
O egoísmo, dentro de seu dono, morre asfixiado.
E o que era turvo passa a não existir mais.
Cada dia é assim na epopeia da “triste turva razão do egoísmo em ação”.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Concrecoisa Aresta


Entre o teto e a parede existe uma aresta.
A aresta é algo despercebido por muitos.
A aresta virou foto, aqui na Concrecoisa.
Uma aresta é vista, aqui, por um ângulo.
Outra aresta é vista por outro ângulo.
As arestas são coisas concretas.
Elas dão volumes aos espaços.
Um cubo não é cubo sem as arestas.
Aresta é parte da geometria espacial.
É um mundo tridimensional, que é algo concreto.
O concreto é o absoluto de si mesmo.
O concreto também é um absurdo.
Um absurdo, como uma ideia.
Que é algo que pesa mais do que o planeta Terra.
A aresta é o peso das tensões.
E a aresta sem amor não é nada.
Pois o amor é o peso total da vida.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Concrecoisa Permissão



Nem tudo é permitido!
Digo isto, aqui nesta Concrecoisa, porque o tolo existe.
O tolo, em verdade, é o “sabido” demais.
Ele é o ser que só pensa em si. Tem olhos de coruja.
O tolo-zoião é o sabido aspeado.
Ele pensa que os outros são tolos ao aplicar os seus golpes.
Daí digo:

O que seria a permissão
Senão a fatia de um bolo
Sabiamente ofertada por Deus
Que ignora a gula do tolo
Que vive sedento de prazer
Tentando comer todo o bolo

Cuidado! O tolo quer comer todo o bolo.
Ele está em Brasília.
Está na esquina.
Está aqui na urbe, ali e acolá.
Está onde tem bolo.

Conheci um andarilho que fechou uma confeitaria chamada poder.
Cansou de ver o bolo esmigalhar ante a gula do tolo.
Mostrou que nem tudo é permitido.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Concrecoisa Içar


O homem deseja ser imortal.
Ele tenta içar a morte.
Assim, poderá aproveitar a longa vida.
Porém, o mundo não é apenas flor, riso e amor.
É espinho, muito espinho.
Um dia, não lembro o lugar, um profeta que percorreu a imortalidade me disse que:

Içou a morte
Ganhou a eternidade
Vagou por séculos
Assistiu barbáries
Entediou-se com tudo
Chorou escondido
Pediu perdão
Voltou ao normal
Reencontrou a incerteza
Deu o último suspiro
Sentiu finalmente a felicidade

Ele precisou morrer para ser feliz.
Cansara do próximo espinho da esquina!
As flores murcham...
E o tempo de cada um é a eternidade que fica nos outros.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Concrecoisa Ternura


A compaixão que abraça pouca gente.
Ultrapassa a carne revestida de aço.
E remove a nódoa do desamor.

Ao banhar com doçura a leveza do ser.
Num meigo carinho qualquer.
A ternura contamina o todo, despretensiosamente.

E do nada, no vazio do espaço, alguém feliz diz:

Terno abraço
De um amigo
É forte braço
Ante o inimigo

Este alguém, aqui, encontra na Concrecoisa de hoje a ternura do dia renovado.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Concrecoisa Kamikaze


Tempo de guerra. Ano de 1945.
O Japão, no front, é lambido pelo Oceano Pacífico que arde em chamas.
O kamikaze na sua máquina de voar faz o primeiro-único-último voo.
No horizonte distante, tremula a bandeira do sol nascente numa manhã cinza.
Alvorada eterna no Japão.
O alvo à frente.
No voo de despedida.
O herói se explode com o inimigo.
Nada de flores. Nada de funeral. Só a dor.
Sangra o coração estilhaçado de quem ficou para contar a história.
A guerra que não é do kamikaze termina.
Hoje, o kamikaze vivo aparece na pele do poeta que teima em explodir o mundo com flores do jardim da paz.
Onde está você kamikaze, onde está você?

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Concrecoisa Caymmi



Dorival Caymmi é pilar da Música Popular Brasileira (MPB).
O som do seu nome é o som da construção; um som do novo jeito de cantar as belezas da Bahia e com um olhar na tradição.
Caymmi é o som da identidade baiana. É o mar batendo na praia e onde o pescador ganha o pão.
Caymmi é o singelo desvirginar sonoro do que é regional. Ele faz o hímen cair, num cai hímen do passado para o futuro e com o passado reinventado pelo violão muito bem tocado. É a vanguarda musical brasileira, em síntese.
A ideia da Concrecoisa Caymmi surgiu em Seabra, cidade do interior da Bahia, durante o Simpósio Internacional de Baianidade.
Fui falar sobre trio elétrico, frevo baiano e Axé Music.
No papo com os amigos Carlos Barros, Marielson Carvalho e Armando Castro, todos palestrantes e admiradores da obra de Caymmi, esta Concrecoisa abençoou minha cuca. Era o final da manhã de sexta-feira, dia 14 de outubro. Meu parceiro musical Narlan Matos gostou da proposta.
Hoje, Caymmi surge num fundo azul das cores do mar e do céu. Peço licença aos Orixás e agradeço pela inspiração, pois este azul é o brilho de Oxóssi e de Ogum nas águas de Yemanjá.
Aqui, ao falar de Caymmi, lembro da minha infância e de meu pai João Mac-Allister colocando um disco deste mestre do cancioneiro popular numa radiola valvulada.
Por desvirginar e romper sem temer, Caymmi ganhou a dimensão da flecha de Oxóssi cortando o espaço brasileiro.
É uma flecha que se multiplica em notas musicais e desvirgina com o samba de minha terra aquele que é ruim da cabeça por não gostar de samba.
Obrigado mestre, obrigado por tudo.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Concrecoisa Deus


Em cores primárias, a Concrecoisa Deus é o começo de tudo.
O Criador externa a sua força, o seu amor, ao nos mostrar o caminho da luz.
Como luz é cor, essa cor total que nos rodeia é a presença de Deus nas coisas e, aqui, na Concrecoisa.
Também nas não-coisas, como no buraco negro, existe o seu esplendor, a sua grandiosidade enigmática.
Nas orações, tentamos nos aproximar de Deus.
Ele sorri de nós ao achar estranha essa busca humana pelo poder.
Ele sorri mais ainda porque o poder é uma ilusão.
E por ser ilusão, o poder passa.
E a vida passa, chega ao fim, em todos, e num determinado dia.
Em Deus, a vida não se esgota.
Deus é a totalidade da vida que a Concrecoisa reverência.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Concrecoisa Crucificarros



A cruz transita pelas ruas.
Cada pessoa carrega a sua.
O carro é a cruz da modernidade nas grandes cidades.
Ele crucifixa o Salvador.
E Salvador crucifixa os seus filhos.
O volante, então, faz sangrar.
A liberdade está engessada nas descargas dos carros.
Gás, gás, gás...
A máquina para.
A vida passa pela janela fechada.
O vidro veda a vida. Medo!
Crucificarros sejam os vossos bens em velô.
Amém, máquina de ir e vir!