sexta-feira, 7 de junho de 2019

Concrecoisa Avesso do verso



O avesso gosta de ser antagônico.

E, também, gosta de ser verso.

Tudo dentro da possibilidade que envolve o querer.

Uma hora é avesso.

Outra hora é verso.

Na poética, o avesso virou limite do verso.

Pois sempre há verso no avesso.

E o avesso do verso vive feliz.

Assim, o verso do avesso e o avesso do verso ganham a capa da inquietude.

Pronto!

É isso, tudo isso e só isso.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Concrecoisa Amor Fragmentado


Vento quente

Vento frio

Óvulo fecundado

Depois...

Tudo suspenso no ar

E só resta

O amor fragmentado

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Concrecoisa Brotação



O tempo brotou no tempo.

Foi o seu primeiro ato.

Depois ocorreram outras brotações.

Dentre elas, verdades e mentiras.

Como o tempo é senhor de tudo, ele trabalha em silêncio.

E no seu agir, a verdade brotou depois de a mentira mostrar a sua face.

Porém, com o tempo agindo, a mentira morreu em si.

O tempo, soberano, mostrou que só ele é capaz de fazer a verdade seguir a sua difícil jornada neste mundo de maldade.

E o tempo imediatamente aprendeu a brotar esperança.

E segue fazendo justiça.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Concrecoisa Hummmmmm


Beguinho de Zezinho era um atacante esperto, raridade no futebol mundial.

Ele conhecia como poucos os atalhos da grande área e a bola, sua amada amante, caia em gozo aos seus pés nos momentos mais difíceis de uma partida.

Ela, a redondinha, estava sempre pedindo para ele chutá-la na rota das redes.

Os goleiros sofriam com Beguinho, pois seus chutes eram precisos e fortes.

De gol em gol, ele foi artilheiro do campeonato de seu estado, nas terras de “Lá não sei aonde”.

Porém, quando ele “comia água,” o dia seguinte era em um terror.

A bola fugia dos seus pés.

Influenciada pelas emissoras de rádio, a torcida sempre pedia a sua cabeça.

Mas Beguinho era matador.

Numa das muitas decisões vitoriosas, ele fez um gol de bicicleta que garantiu o campeonato nacional.

A cidade foi à loucura.

Os radialistas do contra calaram a boca.

Beguinho se vingou com a arte de fazer gol!

E qual o segredo do sucesso de Beguinho?

Ele é um preguiçoso consciente.

E até hoje, bebendo ou não, ele tira uma soneca antes das partidas.

Aquela preguiça domada, pacto com ..., era a fórmula do sucesso.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Concrecoisa Alvoroço



Aquela palavra surgiu por imposição ideológica.

Num primeiro momento, ela foi aclamada por todos.

– Viva a nova palavra!

E o tempo passou veloz.

No bagaço deixado pelo moer dos segundos pela ampulheta, o governo mudou.

Foi por vontade daquela sociedade atiçada e soberana.

E a tal palavra encantada caiu em desuso.

Paralelamente, suas letras começaram a brigar entre si.

E começou uma revolução dentro do dicionário carcomido pelo tempo.

O alvoroço alcançou as ruas.

E o melhor estava para acontecer com o surgimento de uma nova palavra que sacudiu a dor e atiçou o amor.

– Viva a nova palavra!

A revolução das traças nunca parou.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Concrecoisa Machado de Assis



As lágrimas escorreram pela face enrugada daquela velha senhora.

Lágrimas do tempo...

Na ponta do queixo, as gotas abraçadas umas às outras brincavam de cachoeirinha.

O chão empoeirado entrou na brincadeira e engolia cada gotinha como se fosse abafabanca derretida no inverno.

Mas o inverno já tinha passado, como tudo passa.

A seca tinha comido tudo.

Não sobrou verde, só verdade.

Só lágrimas salgadas para contar a história.

Aonde elas foram parar?

Fiquei sem saber.

Perguntei para Machado de Assis. Ele disse que “lágrimas não são argumentos”.

Depois fez silêncio para deixar ouvir o pingar da dor no sertão.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Concrecoisa Rousseau



O filósofo francês Jean-Jacques Rousseau mostrou no “Ensaio sobre a origem das línguas” que o homem difere dos animais por causa da linguagem.

Essa linguagem é a primeira porta para a liberdade.

Mas nem todas as pessoas têm a chave dessa porta.

Tem gente que não entende nada, absolutamente nada.

E não sabe o que está fazendo neste planeta.

É um bicho louco junto dos animais.

Na sociedade, as cadeias estão cheias deles.

Também as ruas e os lares.

Esse bicho traduz a linguagem da ignorância.

E essa ignorância acorrenta o saber.

E onde está a linguagem que chama a liberdade para dançar no salão do saber?

Está na valsa de Rousseau.

“São dois pra lá, dois pra cá”, diz a letra da canção popular.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Concrecoisa Elevação espiritual



Agradeceu a Deus.

Agradeceu à vida.

Agradeceu ao sol.

Agradeceu ao tempo.

Agradeceu aos amigos.

Agradeceu aos pais.

Agradeceu a um.

Agradeceu ao outro.

Agradeceu ao destino.

Agradeceu à sorte.

Sempre agradeceu.

Sempre agradeceu.

Em cada agradecimento, subia mais um degrau da elevação espiritual.

Assim conquistou o que quis.

Pois tudo é agradecimento.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Concrecoisa Beleza do simples



Gostava das coisas mais caras.

Viveu décadas e décadas cultivando o glamour, o efêmero, a nuvem das distorções sociais.

Mas a grana foi acabando, velozmente.

E os seus pais estavam sepultados onde estão todos os seres insubstituíveis.

Um dia, a conta no banco estatal ficou devedora.

Balançou na corda bamba da inflexão econômica.

E recuperou as finanças vendendo os últimos imóveis.

Porém, continuou a gastar.

Quando descobriu que a beleza da vida estava nas coisas simples, era tarde demais.

Muitos pensaram que aquela pessoa sofreria mais que demais por ser mais um na imensidão do mundo dos pobres.

Grande engano.

Aquela pessoa já tinha se transformado num ser domado pela beleza do simples.

E assim a felicidade lhe abraçou para a eternidade.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Concrecoisa Ardor



Tudo era ar

Tudo virou dor

Tudo no ar

Tudo com dor

Em dor que arde

Ardor único

De dentro para fora

Em explosão

Sem cessar

Sem cura

Em suspensão

Só dor...

E ardor...

No ar