sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Concrecoisa Já era


O tempo passou rápido.

A adolescência foi ontem.

A infância anteontem.

A maturidade, um suspiro que ainda ecoa ali na esquina.

A velhice, um atchim gélido.

Os amores viraram páginas amareladas de um diário.

A certeza: tinha a consciência de tudo.

Era ela, era ele.

Já era. Ele sem era, ele sem ela.

E o filme passou sem reprise! 

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Concrecoisa Imunidade


Ele era rico, muito rico.

Multiplicou a fortuna agindo junto ao núcleo da corrupção do poder central.

Começou a ser investigado pela Polícia Federal.

Ficou com receio de ser preso.

Entrou para a política e foi eleito deputado federal.

Ganhou imunidade.

Continuou agindo, protegido pelo mandato.

Renovou o mandato por muitos anos.

Morreu bem velhinho.

Na lápide empoeirada, sua frase preferida: “aqui jaz um corpo que viveu nos braços da impunidade”.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Concrecoisa Atroz


Guima adorava brincar com o som das palavras.

Um dia, porém, ecos de “oz” ficaram ecoando nos seus ouvidos.

Achando aquilo estranho, contou para a mãe que uma voz estava azucrinando o juízo.

Zefinha mandou ele rezar, antes de dormir.

Guima rezou, rezou, rezou...

Pela manhã, não levantou.

Zefinha pensou que Guima estava doente.

– Acorda Guima, hoje tem aula. Deixa de preguiça!

– Mãe, a voz continua atroz!

– Você rezou?

– Sim mãe, rezei até às sete da manhã!

– Tá bom. Fique aí quietinho. Continue rezando.

A manhã passou rápido.

A voz foi embora.

E Guima encontrou a paz fazendo versos.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Concrecoisa Rastro


Yagotan foi um excelente guerreiro.

Lutou até a morte.

Seu corpo foi levado para o ritual de despedida.

A tribo não chorou.

A morte combatendo o inimigo era o renascimento.

Suas armas foram passadas para Yagotani, seu filho mais velho.

No encerramento da cerimônia de despedida, uma ventania soprou o chão da aldeia.

Todos os rastros foram removidos.

A chuva caiu no dia seguinte.

No chão lambido pelo choro do céu, o rastro de Yagotan reapareceu.

Foi um sinal que a vida não tinha terminado.

O rastro era a vida continuada.

Tempos depois, Yagotani derrotou os inimigos.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Concrecoisa Útero


O poeta nasceu num túnel.
O túnel era o seu útero.
E o útero a palavra.

O poeta morreu no túnel.
O túnel era o seu túmulo.
E o túmulo a palavra.

O poeta renasceu no túnel.
O túnel voltou a ser útero.
E o útero a palavra.

O poeta imortalizou-se no túnel.
O túnel era o seu tudo.
E o tudo a palavra.


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Concrecoisa Tempo do tempo


A dor era insuportável.

Uma presença instalada, total sofrimento.

A dor soterrou tudo.

Principalmente o sorriso.

Cansada de ser o sofrer, a dor liderou uma revolução.

No campo de batalha, ferida, encontrou o tempo.

Implorou por ajuda.

Certo dia, a dor sumiu.

O tempo do tempo foi a cura.

O sorriso voltou a sorrir.

E as dores da vida estavam sepultadas.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Concrecoisa Galo em Cor


Voltei a pintar com tinta acrílica sobre tela.

Pintei a Concrecoisa Jânio Quadros e abstrações geométricas.

Dentre as abstrações geométricas, nasceu a obra  “Galo Vencedor”, gerada pela espontaneidade harmônica das formas poligonais em explosão de cores.

O grande amigo museólogo Anibal Gondim, doutor em montagem de exposição, fotógrafo experiente e criador de aplicativos voltados para o turismo cultural e museus, aprovou como conhecedor das artes visuais as minhas pinturas.

No último sábado, dia 1º de outubro, Anibal foi abduzido pela pintura abstrata chamada “Galo Vencedor”, adquirindo-a num piscar de olhos.

Hoje, faço uso de uma das minhas pinturas, o “Galo Vencedor II”, na forma de concrecoisa, por sugestão de Anibal.

Só não utilizei a imagem “Galo Vencedor”, que desencadeou tudo isso agora narrado, porque a tela está vestindo-se de moldura para viver feliz numa parede do apartamento de Anibal, já reservada por Simone Trindade, sua mulher.

E a imagem do “Galo Vencedor II”, agora Concrecoisa Galo em Cor, dialoga com as palavras, que suplementam aquilo que precisa emergir de um lugar que não cabe explicação.

A cor fez o galo.
O galo nasceu da cor.
A cor fez a forma.
A forma do galo é cor.

Assim é a vida: talvez arte.

Assim é a arte: com certeza vida.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Concrecoisa Amam

O vazio era, por si só, tudo.

Houve uma explosão.

A matéria passou a existir.

Depois surgiram mais matérias, que dançaram juntinhas em ritual de multiplicação.

Desse ritual, a vida nasceu em forma de nova matéria que aprendeu o que é morrer.

A partir de uma vida, outras vidas surgiram.

E dessas vidas, os humanos inventaram o amor.

Foi assim que uma matéria descobriu que todas as demais matérias amam.

E a notícia desse amar ganhou mundo e virou concrecoisa.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Concrecoisa Ou Não


O claro não é claro no claro.

O escuro não é escuro no escuro.

Claro, ou não.

Escuro, ou não.

O cantor e compositor Walter Franco lançou o “ou não” na Música Popular Brasileira.

O seu disco de 1973, com a capa toda branca e a foto de uma mosca, leva o nome "Walter Franco - Ou não”, que é uma possibilidade frutificada na letra da canção “Cabeça”.

Walter Franco é um gênio. Gosto muito do seu trabalho musical.

Hoje eu resgato o seu “ou não” ao falar das possibilidades da luz.

Tudo é possibilidade, ou não.

Depende das circunstâncias.

O claro é claro em relação ao escuro.

O escuro é escuro em relação ao claro.

Tudo claro. Tudo escuro.

Nada é claro. Nada é escuro.

Assim quer a luz.

Ou sim!

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Concrecoisa Jogo da Vida


Começou, sem saber o caminho.

Caminhou, caminhou, caminhou...

Seguiu.

Trilhou só.

Depois com alguém, sem nome: apenas um outro.

Parou, diante de uma cruz.

Rezou, mesmo sem saber no papel o que era devoção.

Foi aprendendo, assim, conforme cada necessidade.

O tempo era seu amuleto.

Tempo que parava diante d’um problema.

Pulou etapas.

Sentiu frio e riu.

Traquinou com a dúvida.

Nunca chegou ao fim da caminhada.

O fim era sempre o seu começo.