quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Concrecoisa Verso do adeus


Todos são poetas Uns escrevem versos Outros vivem Os que brincam com as palavras rabiscam, talvez cada dia, um verso do poema do adeus Os que brincam com o viver a vida em si fazem o poema da lembrança É o adeus que se aproxima O verso é cada segundo, cada minuto, cada hora, cada dia… O poema é a vida E o poeta é o herói que resistiu Que chorou e que sorriu O verso do adeus não atormenta quem galopa na esperança de respirar amanhã

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Concrecoisa Encalço

Os sinais estão espalhados

Uma cruz qualquer é um desses sinais

Cada um carrega a sua

Ali no chão tem cruzes espalhadas nos espaços deixados pelas pedras assentadas

Basta olhar com atenção

Enquadrar o desejado

Tudo está dando sinais

Tudo está no encalço

As marcas não escondem

O medo foge

Encalço não é o fim

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Concrecoisa Placebo

Com precisão e elegância do único número primo par, o número 2, Caetano Veloso disse num verso de canção que “gente é pra brilhar”.

E completou em seguida: “Não pra morrer de fome”.

A canção integra o LP Bicho, de 1977.

Os versos continuam ecoando com mais densidade nos dias de hoje. Tempos complicados, em ebulição.

Esses versos ecoam espelhados ao doce mistério da vida.

Gente é uma força transformadora do mundo, para o bem e para o mal.

É por isso que eu digo na concrecoisa que…

Gente é ostra.

Gente é mosca.

Gente é mariposa.

Gente é escorpião.

Gente é andorinha.

Gente é placebo.

Tudo cabe nesse mundo chamado gente!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Concrecoisa Reencontro

 

Todos os dias 

Um pedaço se vai

É a perda de si em fragmento

Um por um

Sem alarde 

Eles começam a povoar o imaginário

E as zonas abissais dos relacionamentos

Pedaços espalhados no vazio, na dor, no desespero, na esperança, no nada

Um dia os pedaços vão se juntar

Ou apenas um

E quem achar 

Esse pedacinho de si

Terá reencontrado a alegria interior

E o pedaço maior vai dizer

É a vida!

É a vida!

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Concrecoisa Silêncio

Psiu, pediu o padre na missa.

Psiu, pediu a professora aos alunos.

Psiu, pediu a atriz no teatro.

Psiu, pediu o maestro no começo da ópera.

Psiu...

Tem hora que é preciso fazer silêncio.

Nessa hora, o silêncio quer sussurrar.

Mas todos continuavam falando em vão, à toa.

Quando os ouvidos perceberam que a guerra estava perdida, uma bomba atômica explodiu.

Foi o psiu final.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Concrecoisa Busca do par

Um par é complemento...

E quando uma parte se perde da outra parte

O que era dupla se transforma em unidade

Desde então, a memória começa a vasculhar as inúmeras camadas da mente

E acaba em explosão de saudade

A bota velha e solitária desta concrecoisa foi fotografada numa rua de Salvador

Ela faz parte do descarte natural das coisas

Ela, imagino, também nunca esqueceu que tinha um par

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Concrecoisa Felicidade infinda

Maria teve cinco filhos.

Ela cuidou sozinha das crianças. O marido morreu cedo.

A comida era regrada, só com o básico.

A educação era sagrada e os livros didáticos reciclados.

As crianças cresceram, se formaram e ganharam o mundo.

Todos foram graduados em nível superior e passaram a ocupar um lugar de destaque na sociedade.

Quando Maria completou 90 anos, os filhos fizeram uma única pergunta na festa de aniversário.

– Mãe, por que a senhora nunca entrava em desespero quando o dinheiro terminava?

Ela respondeu, rindo:

– Porque eu sou felicidade e essa felicidade infinda faz sumir tudo que não faz bem. O desespero era a primeira coisa a sumir. 

E todos se abraçaram numa felicidade infinda, contagiando quem estava na festa e, agora, quem acabou de ler a concrecoisa.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Concrecoisa Bote da fé

O mar estava calmo.

A viagem seguia tranquila, segura e em paz.

Repentinamente, uma tempestade apontou no horizonte.

A calmaria virou caos.

A embarcação virou.

E naquelas águas turvas, turbulentas e mortais surgiu um bote.

A fé fez surgir aquela embarcação chamada de bote da fé.

Salvo, em terra firme, quem estava na embarcação escreveu na areia da praia para o mar lamber e o vento secar: “O bote da fé salva do naufrágio d’alma”.

E a tempestade se dissipou no horizonte, pedindo perdão.

Ela tinha "consciência" do que fizera. 

É da natureza da tempestade atormentar o momento de paz!

A fé riu de tudo.

E ficou mais forte do que era.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Concrecoisa Nova memória

O ano de 2020 está no passado.

E o ano novo começa com a bandeira da esperança hasteada dentro de cada um.

O otimismo pisca na esquina da vida.

As coisas ruins são lançadas para as zonas abissais do esquecimento.

E a magia do novo borda a bainha da calça para não atrapalhar a caminhada que está acontecendo.

Diante de tudo que acontece na revoada do tempo, no cruzamento entre presente, passado e futuro, um cisco de renovação faz escorrer pela face uma lágrima da esperança.

E a memória tecida pelo presente.

Finalizada no passado.

Aponta para o futuro e mostra que somos memória.

Assim, desejo um feliz 2021 para todos que curtem as concrecoisas.

Adeus ano velho, que agora é mais uma camada de memória!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Concrecoisa Tempos de evaporação


Tempos de agora.

Estridente, com lacração e muita interrogação.

Tempo de evaporação humana.

Tempo de ideologia acima da razão.

Tempo de soberba e dominação.

Tempo de vaidade.

E a sociedade vai ruindo...

Porém surge no barro do chão um espinho da esperança.

Dele nascerá uma rosa da retransformação.

E em algum lugar, haverá luz iluminando a escuridão d’alma!

É a resiliência da bondade.