sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Concrecoisa Telhado


Em autobiografia, uma telha contou que tinha se apaixonado pelo céu.

Numa das suas passagens, narrou que chorou por não ter nascido em berço de vidro.

Já nas últimas linhas do texto na primeira pessoa, falou do passar do tempo, da exposição ao sol e da chuva que lambia as suas mágoas.

A telha disse ainda que o telhado da casa era o verdadeiro sentido da vida em sociedade igualitária.

Ali no telhado, com uma telha imbricando na outra, o tempo corria sem dar conta de si.

Um dia, antes da demolição da casa, a chuva constatou que “o tempo deixa na telha a cor de sua marcha”.

Foi quando a telha chorou...

Os tempos eram outros.

E a laje da nova casa instaurou o totalitarismo. 

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Concrecoisa Tristeza


Numa caverna, no ritual do fogo, a tribo sentiu a falta de Mug.

Mug era um jovem que semeava sorriso.

Morreu caçando, solitário.

Ele era diferente de todos daquela tribo, pois sabia dominar a tristeza.

O sorriso de Mug foi pintado na entrada daquela caverna perdida na Mata Atlântica.

A partir deste dia, em mais um ritual do fogo, todos ficaram sabendo que a tristeza um dia já sorriu.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Concrecoisa Pedra

Encontro por acaso uma pedra no caminho.

Não é a pedra do poema de Carlos Drummond de Andrade.

É a pedra do poema da vida.

É a pedra chamada gente.

Uma pedra dura, rude, inflexível, insana, ideologizada, corrupta, bandida, antiética e multiplicada nas massas humanas.

A pedra que é gente morre em pedra, na lápide empoeirada.

Tem gente que é pedra.

Tem pedra que é gente.

Pedra e gente se misturam na coisa misteriosa da mente. 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Concrecoisa Fundo do poço


Cena um: mais um dia de trabalho e o recomeço da agradável rotina.

Cena dois: o susto de um assalto.

Cena três: a desesperança.

Cena quatro: as sequelas psicológicas, a queixa na delegacia e a emissão do boletim de ocorrência.

Cena cinco: nos dias seguintes, a perda de tempo para retirar a segunda via dos documentos que foram roubados.

Cena seis: pausa para a reflexão.

Cena sete: a conclusão que a bandidagem tomou conta da rua, e essa rua é minha, é sua, é nua e é crua. E o resultando é um triste Brasil, um barril social.

Todas as cenas fazem parte de uma realidade.

Sou testemunha.

Vejo que o Brasil está perto do fundo poço, se é que não chegou lá.

Essa é a nossa triste realidade.

Termino agradecendo a Deus, aos santos protetores e aos Orixás por estar vivo, fazendo a concrecoisa também viver!

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Concrecoisa Eliminar


Era primavera.

Os conspiradores estavam reunidos na Praça da Paz.

O mais novo integrante da Frente de Transformação Social queria se infiltrar na célula central do comando que estava no poder.

Sua intenção era passar as informações para o núcleo pensante da Frente de Transformação Social.

O seu líder, um conservador ligado aos países não alinhados, não concordou com a proposta, pois queria a infiltração de um miliciano mais experiente.

O jovem, então, passou a conspirar contra os pares, atuando como agente duplo.

Na verdade, o jovem queria ocupar o lugar do líder conservador e impor as suas ideias.

Depois de um ano, na primavera seguinte, o jovem foi convidado para participar de uma ação juntamente com o seu líder.

Em reunião secreta, o jovem disse que o futuro da Frente de Transformação Social estava em perigo.

O líder não deu ouvidos e desconstruiu o discurso inflamado de seu pupilo.

Dois dias depois, no apartamento onde estavam reunidos, o jovem preparou café com cicuta e ofereceu ao chefe.

No dia seguinte, o jovem foi informado que o chefe estava morto e que tinha deixada uma carta que era para ser lida quando chegasse esse dia.

A carta foi lida em voz alta pelo sucessor imediato.

No final da carta, o líder confessou que não queria que o jovem atuasse em missões perigosas porque ele era seu filho, fruto de um relacionamento com uma companheira que vivia na clandestinidade.

O jovem ficou paralisado.

Em choro, bebeu o último gole do café que tinha oferecido ao líder morto. 

E foram enterrados juntos.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Concrecoisa Eutu


O eu está dentro.

O eu está fora.

O eu é ímpar.

O eu é par.

O eu é único.

O eu é múltiplo.

O eutu é isso tudo.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Concrecoisa Sacramento


O pai lavra o dizer das coisas.

Na palavra.

A mãe lavra o dizer das coisas.

Na maelavra.

E a palavra diz das coisas, desde os tempos das cavernas.

Pois palavra é sacramento.

É batismo do humano.

É batismo do pensar.

É batismo do agir.

E a palavra lavra a pele.

A palavra diz da carne.

A palavra está no osso deste bicho diferente que é o ser humano.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Concrecoisa Olho de vidro


Ele vê tudo.

Além do olhar normal.

No escuro, na multidão, no vazio, no ar.

Atrás da luneta,

Pupila de cristal.

Micro,

Macro,

Claro,

Turvo,

Tudo.

Tudo.

Turvo,

Claro,

Macro,

Micro,

Pupila de cristal.

Atrás da luneta,

No escuro, na multidão, no vazio, no ar.

Além do olhar normal.

Ele vê tudo.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Concrecoisa Fé na Fé


A fé remove montanha.

A fé é a esperança do povão.

A fé é o coração da emoção.

A fé é o destino de muitos durante os tormentos.

A fé é o bálsamo dos bálsamos.

A fé é uma coisa misteriosa.

A fé é a fé.

A própria fé tem fé na fé.

Fé na fé: forma de amar o mistério!

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Concrecoisa Controverso


O verso vivia só.

Um dia, o contorno quis ser seu par.

Acabaram firmando casamento.

Não demorou muito, o verso sentiu-se vigiado, oprimido.

Não era mais o que era.

Era tarde demais para o reverso do verso.

E o contorno virou o seu controverso.