sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Concrecoisa Chão de Portugal VIII


O passado estava na vida.

Menos nele.

Que negava a sua existência.

Ele gostava de viver o presente.

Na calçada, ele olhava para o amanhã.

E sorria ao dar cada passo.

E em cada caminhar, ele esquecia do fim.

Fim que é passado.

Fim que é presente.

Fim que é futuro.

E o único fim que ele não esquecia era a calçada.

Sua eternidade.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Chão de Portugal VII

Ele sofreu com a maldade do outro.
O seu coração ficou partido.
Porque ele jamais iria imaginar que o outro, alguém querido, fizesse tamanha maldade.
O tempo passou.
E aquele ferimento continuo sem cicatrizar no seu coração.
Um dia, ele perdoou o outro, aquele que lhe magoou.
E esse perdão aconteceu numa caminhada com os pés descalços por uma estrada espinhosa.
Foi ali, ao sentir o espinho sangrar a carne, que veio a cura da ferida do coração.
E uma voz vinda do chão lhe disse que “perdoar é sentir o beijo da sola do pé no caminho semeado de mágoa”.
Já velhinho, ele entendeu que "mesmo havendo obstáculo no caminho, a cura e o perdão estão no caminhar pela estrada que foi escolhida para sentir a vida".

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Concrecoisa Chão de Portugal VI

O círculo nasceu na hora da formação do universo.
Com a pedra também foi assim.
Tudo como um estalo, um boooom.
Com o aparecimento do homem, milhares de anos depois, o círculo e a pedra viraram construções e passeios, embalando o fervilhar da civilização.
As outras formas geométricas não precisaram ficar com ciúme. Elas também viraram construções, viraram passeios.
Num outro prisma, numa outra perspectiva, viraram um eco de esperança.
Aqui na concrecoisa, neste passeio com círculos, os passos circulam por entre as rotas de esperança.
Em tempos remotos, essa trilha era de barro.
Mas foi de passeio em passeio que o transitar do desejo fincou as suas raízes.
Com o transitar, as dores do mundo ficaram incrustadas nas pessoas.
Algumas pessoas conseguiram se afastar dessas dores. Outras não.
Aqui, como as pessoas são personificadas em círculos, o passeio então pôde dizer:
“Poucos são círculos para suportar as dores do mundo”.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Concrecoisa Chão de Portugal V


Ela começou a andar sozinha por todos os cantos daquele mundão de Deus.

Os anos passaram rapidamente e com as ordens do tempo as pernas perderam as forças.

Nessa altura da vida, os passos contados já passavam dos milhões.

Olhando-a de perto, dava para ver que o peso dos anos fez o passo encurtar.

Mesmo cansada, ela continuou caminhando, sempre só.

E quanto mais ela andava pelos quatro cantos do mundão de Deus, mais o chão evocava em segredo o seu destino.

E foi naquele chão molhado pelo sereno da madrugada que ela foi beijada pela eternidade.

Ainda hoje, o som dos seus passos ecoam!

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Concrecoisa Chão de Portugal IV


Ela brigou com ele.

Ele brigou com o outro.

O outro brigou com o outro.

As intrigas foram içadas.

Todos contra todos.

As almas sofreram.

Porém, em longas caminhadas individuais.

Na calçada que estava ali.

O chão semeou a reflexão de cada um.

E depois de alguns passos.

O tempo escreveu sua autobiografia.

E ela, ele e o outro entenderam que o ressentimento deixado no chão vira poeira quando a esperança é o passo.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Concrecoisa Chão de Portugal III


A âncora estava ali, na calçada, olhando os milhões de passos apressados.

Ninguém parava para fazer parte do seu universo estático.

A poeira era a contradição que adormecia no seu colo minuto a minuto.

Certo dia, Merinita quis ser poeira.

E poeira humana virou adormecida na calçada.

Onde ficou sentindo a pressão e a humilhação de cada pisada.

Depois de muito tempo, Merinita voltou a ser movimento.

E o seu rastro virou circunstância de sua vida, circunstância que embasa o pensamento do filósofo espanhol Ortega y Gasset, que disse: “Eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo não me salvo eu”.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Concrecoisa Chão de Portugal II


Pedro está para a pedra

A pedra está para Pedro

Pedro amou a pedra

A pedra virou civilização

Um dia

Pelas mãos de Pedro

As pedras desenharam um nó

Desde então

As solas dos pés celebraram o porvir

E deixaram um rastro de amor petrificado entre o sonho e a realidade