sexta-feira, 22 de maio de 2020

Concrecoisa Pecados em pedaços


Os pecados

São pés descalços

Os pés descalços

São pedaços dos caminhos

Os caminhos 

São laços desatados

Os laços desatados

São novos caminhos dos pecados

Os pecados

São gritos silenciados pelas leis de aço

As leis de aço

São sussurros amordaçados

Os amordaçados

São todos

Ali tem sapato!

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Concrecoisa Avidavaleapena


Ninguém mais circulava mais pelas ruas.

Estava tudo travado.


Lockdown, lockdown, lockdown, lockdown...


Todos ficaram reféns das novas medidas.


Ditadura das leis, da ordem, do poder.


Choros e risos foram ouvidos nos apartamentos grandes e minúsculos.


E também nos barracos que são piores do que as velhas cavernas do período paleolítico.

Porém, os passos da vida ainda ecoam.


E nada de aglomeração.


Aquela transa deixou de rolar.


Tudo para evitar o monstro invisível, Seu Coronga.


Todos querem viver mais e mais.


"A vida vale a pena!", poetou Coroguinha disfarçado de anarquista.


"Seu Coronga não morreu, Seu Coronga sou eu", retrucou bem alto o dono da lei.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Concrecoisa O fio


Ele ficou ali, perdido, adormecido, esquecido…

Encontrei-o sem querer, num descuido do olhar.

Estava numa mesa com tampo de vidro, onde trabalho os meus pensamentos, as minhas ideias.

Ele ficou entre o vidro e a base de apoio.

Não sei como chegou ali.

Só sei que ele estava lá.

E a minha cabeça, sem ele, já não sentia a falta da sua presença.

Outros irmãos ajudavam a superar aquela perda.

Assim os fios de cabelo se vão.

Cada um procurando um novo cantinho para passar a viver.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Concrecoisa Moraes Moreira


A morte do compositor, cantor, cordelista e escritor Moraes Moreira, no dia 13 de abril, aos 72 anos, enlutou a Música Popular Brasileira (MPB).

Ele era o principal nome do grupo Novos Baianos, que fez  história na cena musical do final dos anos de 1960 e começo dos 70.

Eram tempos com tensões políticas e com mais arte e menos grana.

Moraes brilhou também em carreira solo e viu o Brasil descer a ladeira graças ao olhar de João Gilberto, seu mestre.

João também fez Moraes evoluir no tocar do violão.

Ensinou-lhe sem precisar dar aula, só dedilhando clássicos da bossa nova, encantando, brasileirando, agregando gerações.

Autor da canção “Acabou Chorare” em parceria com Luiz Galvão, obra que deu nome ao disco emblemático de 1972 dos Novos Baianos, Moraes conseguiu transitar pela música trieletrizada do Trio Elétrico Dodô & Osmar.

Nesse trânsito sem preconceito, deu molejo ao frevo pernambucano com o dendê da Bahia.

De Ituaçu, interior baiano, ele saiu com o violão colado ao peito para conquistar o Brasil com música.

Agora ele deixa esta dimensão para conquistar a eternidade!

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Concrecoisa Controle da história


Em conferência na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, em março deste ano, o escritor e antropólogo Antonio Risério apresentou um rico trabalho intitulado "Em busca da nação perdida".

Tive a grata satisfação de ler o material, que acabou virando tema da concrecoisa desta sexta-feira (24/04/20).

Diz Risério que "certa esquerda brasileira se empenhou numa revisão" da história do Brasil, num "empenho mal", optando pelo "maniqueísmo".

E por conta desse maniqueísmo, "repetiu a velha história, invertendo os seus sinais".

Disse ainda que isso se agravou nos parâmetros escolares do ensino no governo de Fernando Henrique Cardoso, quando "esta história se converteu em práxis escolar...".

E numa lucidez que merece moção de aplausos, Risério afirmou que "esta nova história substituiu mentiras antigas por mentiras novas".

Foi neste ponto que a concrecoisa brotou.

Obrigado Risério pela sabedoria, pela conferência, e por ver tudo isso dentro do caldeirão de irracionalidade que tomou conta do Brasil.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Concrecoisa Triz


Diz a atriz:

Tudo está por um triz.

Se é força motriz.

Tudo está por um triz.

Se ela contradiz.

Tudo está por um triz.

Se é diretriz.

Tudo está por um triz.

Se é matriz.

Tudo está por um triz.

Diz a atriz.

Diz a atriz.

Diz a atriz.

Tudo está por um triz.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Concrecoisa Liberdar


A liberdade estava diante dele.

Mas ele não enxergava.

– Onde está a liberdade?

Começou a perguntar.

Dos religiosos, não obteve resposta precisa.

Das autoridades, pior ainda. Elas só queriam exercer o poder.

E ficou perguntando, perguntando...

Certo dia, cansado da peregrinação, perguntou para si mesmo:

– Onde está a liberdade?

Nesse instante, sentiu o vento lamber seu corpo.

Ao mesmo tempo, viu uma nuvem passar.

Encontrou a resposta!

A liberdade é o ar, que é o vento em movimento.

E a nuvem que passava era ele e agora é você.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Concrecoisa Medo do amanhã


Um passarinho saiu do ninho em voo rasante nos primeiros raios de sol do inverno.

Sua missão era pegar víveres presenteados pela natureza para os cinco filhotes.

Os filhotes cresceram fortes e ganharam o mundo.

No ano seguinte, lá estava o mesmo passarinho cumprindo uma nova missão, agora com quatro filhotes.

Um observador, da janela do seu apartamento, anotava aquela rotina marcada pelo vai e vem incansável.

E de tanto assistir a celebração da sobrevivência, escreveu:

"O tempo conspira
e faz tremer
quem teme
a verdade"

Sem medo de sair do ninho para alimentar os filhotes, aquele passarinho tinha encarnado, sem temer, o espírito das águias.

E o observador disse para o Deus tempo:

– Viva o passarinho humano que não tem medo do novo coronavírus!

sexta-feira, 27 de março de 2020

Concrecoisa Sabão de amor


Uma gota de ódio pingou na carne

Fez morada na memória

E acabou virando nódoa

Outras gotas pingaram durante a vida

E mais nódoas ficaram impregnadas

Um dia, um sabão especial apareceu para lavar o ódio

Conseguiu!

Foi o milagre do sabão de amor

sexta-feira, 20 de março de 2020

Concrecoisa Colírio de luz


O cego de razão escorregou numa casca de banana deixada pelo destino.

A queda foi feia.

Os joelhos ralaram no chão de barro.

Um velhinho ajudou-o a se levantar.

E ele foi embora em silêncio.

O tempo passou e o cego de razão escorregou novamente.

Os joelhos voltaram a ralar, agora no asfalto.

Uma bela mulher ajudou-o a se levantar.

E ele foi embora novamente em silêncio.

Vieram outras quedas e as feridas dos joelhos não curavam.

Ele já não tinha mais ninguém para ajudá-lo a se levantar.

Assim tocou a vida sem aprender que para cada queda existe um colírio de luz que não deixa a razão cega.

Foi enterrado sem as rótulas.