sexta-feira, 10 de julho de 2020

Concrecoisa Ilusão


Ela dizia que amava ele.

Ele dizia que amava-a muito mais.

No dia seguinte, ela dizia que amava-o muito mais do que ele.

Assim, todos os dias, eles realimentavam o amor.

Aquele sentimento era verdadeiro e só crescia.

A razão alimentava o amor.

E não despertou a dor que vem com a ilusão.

Ele dizia que amava ela.

Ela dizia que amava-o muito mais.

No dia seguinte, ele dizia que amava-a muito mais do que ela.

Assim, morreram juntinhos.

Estavam bem velhinhos.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Concrecoisa Esperando…


Viver é esperar, pois sempre vivemos esperando.

Esperamos por dias melhores, pelo restabelecimento da saúde, pelo salário do mês (para quem é assalariado), pelas férias, pelos presentes no aniversário e Natal, pelas reuniões alegres com os amigos e pelo gol do nosso time.

Esperamos vencer na vida e nos distanciamos da derrota, que é possibilidade esperada pelo campo da probabilidade.

Esperamos por milagres e pelo amor perfeito.

A espera é um presente da esperança.

Acho até que a espera é siamesa da esperança.

Tem espera envolvida em negatividade, como a espera dolorida de uma condenação por infringir a lei.

Diante de tanta espera, creio que ela não tem compromisso com o andar do tempo.

Se tivesse algum compromisso, ninguém ficaria esperando por mais nada.

Espero que tenha gostado.

Se não gostou, lamento, e peço para que espere pela concrecoisa da próxima sexta-feira. 

Espero encontrar um tema que seja do agrado de todos!

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Concrecoisa Cicatriz sarada


A cicatriz pode ser vista como marca inicial para cada pessoa superar uma dificuldade.

Ela está por dentro e por fora.

A externa é mais fácil de perceber e por vezes assusta.

A interna fica escondida da multidão nas zonas abissais do cérebro e só o seu dono pode mostrar como ela é.

Existe a cicatriz histórica que mexe e remexe com a própria história.

Cada povo tem a sua cicatriz.

Sarar uma cicatriz é processo longo.

A cicatriz é filha da ferida.

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A elaboração desta concrecoisa contou com a ajuda do amigo poeta e escritor José de Jesus Barreto. Ele completou “cicatriz traz” com “ferida sarada”.

A síntese ficou muito boa, além da sonoridade!

Cicatrizemos!

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Concrecoisa Cabeça


O que passa pela cabeça de cada um é assunto intrigante e que alimenta trilhões de páginas de livros.

A psicanálise tenta explicar. 

Pois na cabeça cabe tudo.

Ou não, como dizia Walter Franco, autor da canção “Cabeça”, defendida no Festival Internacional da Canção de 1972. 

– O que é que tem dentro dessa cabeça, irmão. Essa cabeça pode..., dizia Walter Franco.

Ainda na música, a cabeça, no plural, estampava na capa do LP “Bicho de 7 cabeças”, de Geraldo Azevedo. O disco foi lançado em 1979.

Outro disco que levou o nome cabeça foi do grupo de rock Titãs. “Cabeça Dinossauro”, lançado em 1986, foi o terceiro álbum da banda.

E a cabeça que rola na música tem ligação direta com Medusa, da mitologia grega, com sua cabeça cheia de serpentes.

O medo cabe na cabeça!

Obedeça a cabeça. Desobedeça a cabeça.

Tudo cabe e não cabe na cabeça. 

Cada um sabe (ou não) a dor de cabeça que tem!

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Concrecoisa Geometria em harmonia


As formas geométricas estão em todos os lugares.

Elas falam por si.

São poemas muitas vezes despercebidos.

Os polígonos são versos.

As linhas retas e curvas são versos.

Os círculos são versos.

E nenhuma forma precisa brigar com a outra para viver feliz, nem com as linhas.

Elas vivem em harmonia.

Os círculos convivem com os polígonos, com as linhas retas e curvas.

Essas formas geométricas em harmonia ensinam mais do que todos os tratados que buscam deixar o mundo melhor e sem conflitos.

A lua redonda, lá no céu, sorri no quadrado da janela.

Assim é a poesia das formas geométricas diante dos nossos olhos.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Concrecoisa Ciúme


O ciúme é capaz de tudo.

Já fez inúmeras vítimas e continua fazendo.

A Bíblia mostrou que o ciúme alimentou o instinto mais primitivo do homem.

Esse instinto fez Caim matar Abel.

O ciúme é uma semente da inveja.

Ele age como gotas de veneno que matam aos poucos.

E de tanto ceifar vidas, por vezes ele acaba cometendo suicídio.

O ciúme também gira como ponteiro de um relógio solar no dorso da história da humanidade.

Qualquer hora é a sua hora de despertar!

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Concrecoisa Sozinho


Tudo tem um porém

E esse porém gosta de brincar com a imaginação

Foi assim que a borboleta dos sonhos do poeta José de Jesus Barreto brincou de ziguezaguear com o passar do dia

Ela gosta de driblar as folhas secas que beijam o chão ao sabor do vento

E numa dessas brincadeiras assistidas por Barretinho

Lá num certo além

Uma borboleta pensou que era Garrincha

Aquele que se divertia entortando os adversários e de quebra escondia a bola num lugar que só Pelé tem o mapa

Dizem que esse lugar fica num outro além, muito além das quatro linhas do campo de futebol

O escritor e jornalista Nelson Rodrigues mostrou nas entrelinhas de suas crônicas futebolísticas o caminho para chegar nesse além

E entre um drible e outro

Cada um com o seu modo de viver

Alguém esqueceu de dizer

Que entre o porém e o além

Tudo é sozinho

E alguém é ninguém no além

A bola está lá...

É gol!

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Concrecoisa Pecados em pedaços


Os pecados

São pés descalços

Os pés descalços

São pedaços dos caminhos

Os caminhos 

São laços desatados

Os laços desatados

São novos caminhos dos pecados

Os pecados

São gritos silenciados pelas leis de aço

As leis de aço

São sussurros amordaçados

Os amordaçados

São todos

Ali tem sapato!

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Concrecoisa Avidavaleapena


Ninguém mais circulava mais pelas ruas.

Estava tudo travado.


Lockdown, lockdown, lockdown, lockdown...


Todos ficaram reféns das novas medidas.


Ditadura das leis, da ordem, do poder.


Choros e risos foram ouvidos nos apartamentos grandes e minúsculos.


E também nos barracos que são piores do que as velhas cavernas do período paleolítico.

Porém, os passos da vida ainda ecoam.


E nada de aglomeração.


Aquela transa deixou de rolar.


Tudo para evitar o monstro invisível, Seu Coronga.


Todos querem viver mais e mais.


"A vida vale a pena!", poetou Coroguinha disfarçado de anarquista.


"Seu Coronga não morreu, Seu Coronga sou eu", retrucou bem alto o dono da lei.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Concrecoisa O fio


Ele ficou ali, perdido, adormecido, esquecido…

Encontrei-o sem querer, num descuido do olhar.

Estava numa mesa com tampo de vidro, onde trabalho os meus pensamentos, as minhas ideias.

Ele ficou entre o vidro e a base de apoio.

Não sei como chegou ali.

Só sei que ele estava lá.

E a minha cabeça, sem ele, já não sentia a falta da sua presença.

Outros irmãos ajudavam a superar aquela perda.

Assim os fios de cabelo se vão.

Cada um procurando um novo cantinho para passar a viver.