sexta-feira, 13 de julho de 2018

Concrecoisa Ponto de apoio



A pedra da dor bateu no coração.

O vento do amor fez uma rosa dançar em Hiroshima.

Tudo ao mesmo tempo.

Diante d’um ponto de apoio.

Ponto que fica vendo a vida pender para um lado, o mais pesado.

Enquanto a realidade balança conforme a circunstância.

A fantasia faz tudo girar.

Menos o ponto fulcral de cada instante.

A pedra não é vento.

E o amor pode virar dor.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Concrecoisa Luzamor



Escureceu.

E ele continuava iluminado.

Amanheceu.

E ela continuava iluminada.

Aquela luz intensa vivia dentro de todos.

Sempre irradiante, ela iluminava a vida.

Desde então, ninguém deixou de sentir a felicidade.

E a luzamor fez de si um sol.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Concrecoisa Luz da noite



Luz e escuridão nasceram juntas.

No mesmo instante, mas a vaidade de uma foi de encontro à vaidade da outra.

O protagonismo do protagonismo criou cisão.

Para a escuridão, a vida começava com o olho fechado.

No entendimento da luz, tudo é clarão.

Sem querer tomar partido, a sombra escreveu um haikai autobiográfico com a poeira do infinito:

O escuro diz

A luz não deixa mentir

A sombra sabe

Quando o tempo leu, o passado daquele nascimento instantâneo foi apagado da memória do universo.

E a vaidade perdeu o sentido de ser.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Concrecoisa Outro dia



Tanajuras em voo.

Céu pintado de cinza.

Passos apressados na cidade.

Mas a chuva se escondeu nas nuvens dissipadas.

E o sol beijou o dia.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Concrecoisa Prisão



Nasceu livre de rótulos.

Viveu assim um bom tempo da vida.

Um dia aceitou ser rotulado de ...

Depois quis ser rotulado de ...

Mas ele era ..., desde sempre.

Era de fato alguém sem rótulos.

Quando quis ser o que era, já era tarde.

As outras possibilidades estavam aprisionadas dentro de si por causa dos rótulos.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Concrecoisa Nódoa da saudade



A saudade nasceu apaixonada.

Uma louca paixão que virou amor.

O tempo amplificou esse amor.

Certo dia o amor deixou de existir.

E a saudade disse ao tempo, olhando-se numa poça de lágrimas.

– A saudade é nódoa do amor.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Concrecoisa Sino



A cidade comprou um sino.

De hora em hora ele dava o ar de sua graça.

A cidade vivia em função do seu tocar.

O pulsar do badalo era a vida de cada morador.

Um dia, a revolução chegou.

A cidade chorou.

A chuva daquele dia também chorou.

Menos o sino, agora rebelde.

Condenado, virou silêncio sem fim.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Concrecoisa Nem um



Ele estava ao lado de todos.

Eram milhares.

A praça era uma só voz, um único suspiro.

Todos significavam um.

As horas foram passando.

E ele ficou só.

Nem um suspiro para partilhar.

Nem um olhar para trocar.

Nem um aceno para retribuir.

Nem um verbo para conjugar.

Nem um beijo para amar.

Nem um agir no viver.

Nem um ...

Nem um ...

Ele: nenhum dizer em solidão.


sexta-feira, 18 de maio de 2018

Concrecoisa Receita



Os tempos estão movediços

Os ódios elevadíssimos

Os medos aprisionados

Os corações abalados

Os poderes apodrecidos

Os sonhos acorrentados

E os conselhos inabalados

Nas receitas de vovó.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Concrecoisa Mar de Lágrimas



Ele chorou.

Ela chorou.

Eles choraram.

Quase todos choraram.

Só os tiranos não choraram.

Eles morreram afogados no mar.

E o poeta escreveu na areia da praia:

O choro

Do coração

Fez um mar

De saudade

E o mundo ficou melhor!