sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Concrecoisa Atravessar


A luz teve orgasmo

Ao perfurar a escuridão.

A escuridão chorou em silêncio

Ao transpor a madrugada.

A madrugada acordou em prazer de luz

Depois de traspassar mais um ciclo do fluir do tempo.

E a lógica temporal atravessou as coisas

Menos quando o fremon se apresentou como constante desconhecida que fez do tempo um enigma impenetrável.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Concrecoisa O Outro


Um dia, o Outro quis que um Outro pensasse como ele.

Agisse como ele.

Acreditasse como ele.

Fosse igualzinho a ele.

E ficou noites e dias alimentando um desejo do tamanho do mar.

O tempo foi passando...

Passando cada vez mais rápido.

E quando viu o desejo naufragar no vazio.

O Outro já tinha virado um Tolo.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Concrecoisa Microconto III


Zeuer, goleiro do time Lilás, combinou com Precrion, bandeirinha da partida final do campeonato, para ele dar uma mãozinha no resultado.

A grana altíssima estava sendo bancada por cartolas e empresas de comunicação.

O acordo foi firmado na calada da noite, um dia antes da decisão.

O jogo estava teoricamente com as cartas marcadas.

Em impedimento, Vesgo colocou o time Lilás com uma mão na taça.

O acordo entre Zeuer e Precrion estava dando certo.

O time Cinza, porém, empatou com Birigó, com um gol de mão.

O árbitro Noneco disse que foi legal.

Em seguida, Tubarão fez o gol da virada fazendo falta em Zeuer.

Depois de muita confusão, o time Cinza acabou levando a taça.

O acordo não vingou.

No vestiário, Precrion foi perguntar a Noneco por que ele não anulou os gols irregulares.

Noneco sorriu e disse.

– Quem tem o apito na boca não faz nascer uma sombra no escuro.

No dia seguinte, Noneco dormiu abraçado com uma mala de dinheiro.  

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Concrecoisa Microconto II


Ele decidiu falar.

Depois desistiu.

Uma hora depois, voltou a decidir.

No dia seguinte, desistiu.

O tempo foi passando, foi passando...

No último suspiro, antes de decidir ou desistir falar, o silêncio calou a decisão.

Assim viveu se enganando.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Concrecoisa Microconto I


Talvez, um homem livre.

Na cela de Lisboa.

O seu veículo para o futuro era o não tempo.

O existir: uma sela da montaria circunstância.

A cela estava tomada pelo outro.

E o vazio nunca fora sua sela.

A multidão sim.

Síntese das selas ocupadas pela esperança.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Concrecoisa Microconto


Mirum casou com Nercita.

Foram felizes, até o último suspiro.

Tiveram filhos.

Todos casaram.

E também foram felizes.

E as flores plantadas por Mirum e Nercita nunca deixaram de embelezar o caminho do amanhã.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Concrecoisa Embriaguez do sol


A luz nasceu.

A sombra acordou.

A noite caiu.

O dia voltou.

Tudo se repetiu.

E a sombra.

Parte do nascer do dia e do cair da noite.

Sentiu em si a essência da embriaguez de um dia de sol.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Concrecoisa Brincando de enganar


No começo, tudo era escuridão.

Depois fez-se a luz.

A sobra então nasceu.

Do casamento da luz com a matéria.

Hoje, a sombra brinca de enganar a luz.

E lembra que a escuridão continua viva.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Concrecoisa À Frente


Giniel inventou uma máquina capaz de modificar a essência da pessoa.

Na Máquina da Transformação M/B-69, tudo aquilo que é provido de maldade vira bondade.

Em Trusgy, seu país, o presidente deu ordem para a população passar pela M/B-69.

Em menos de 10 anos, como um milagre, todos os trugysianos estavam em estado de paz e dominados pela de bondade e civilidade.

Sem maldade, as penitenciarias de Trusgy viraram parques e centros de educação.

A profissão policial foi extinta.

Todos que combatiam a criminalidade migraram para a área da educação.

Os seguranças viraram desportistas.

Só quem não passou pela M/B-69 foi o presidente Preyon, que se achava totalmente do bem.

E era!

Ele se mantou no último dia de governo, quando percebeu que a semente da maldade de querer ficar no poder estava contaminando o seu coração.

Preyon estava à frente de seu tempo e Trusgy nunca mais precisou de governante.  

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Concrecoisa Reticências


...
Assim começou a vida.

...
Assim termina a vida.

...
Assim começa o mistério.

...

Assim continua o mistério.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Concrecoisa Simplificação


Chupala nasceu numa tribo da África no começo do século passado.

Para vencer as dificuldades de uma vida trincada pelas adversidades naturais e inventadas pelo homem, aprendeu rapidamente os segredos da simplificação.

O seu mestre, contava, era Zaiam, que viveu num período antes de Cristo.

Quando um problema ganhava musculatura, ficava mais cabeludo, Chupala mandava cortar as capilaridades.

E assim, sempre resolvendo os problemas e ensinando a resolvê-los, acabou virando celebridade.

Certa feita, antes de virar síntese da síntese da vida, em visita ao Brasil, afirmou que “a simplificação é o degrau mais elevado da conquista humana”.

Hoje, mais do que nunca, Chupala precisa ser estudado.

O problema é que, de tanto simplificar a vida, Chupala acabou virando utopia.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Concrecoisa Caifé


Antonzé acordou com o canto do galo.

No horizonte, o sol também acordava em uma cama de nuvens.

Todo dia era assim.

Porém, neste dia, um fato inusitado entrou para a história de sua vida.

Quando coava o café, uma voz misteriosa ecoou no quintal.

Ele sabia que naquele fim de mundo não morava ninguém.

O medo pediu licença.

Rezou em voz baixa.

Quando a última gota de café passou pelo coador e caiu na xícara de porcelana, uma energia misteriosa irradiou pela cozinha.

A vibração superior foi o sinal que tanto esperava para nunca mais deixar a fé cair no esquecimento.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Concrecoisa Aldravia VI


extasiar
com
o
simples
é
fortuna


Os anos correram...

A vida de Esmeralda era bolinha de gude descendo uma ladeira de paralelepípedo da Cidade da Bahia.

Sua carne sentiu o passar do tempo.

A gude vida estava cheia de marcas.

Resignada, entendia a naturalidade do agir do tempo.

Um dia, num programa de TV, Esmeralda disse que viver feliz é extasiar com o simples, um dos segredos da longevidade.

Desde então, o horizonte de quem praticou simplicidade ficou mais límpido.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Concrecoisa Aldravia V


criação...
criaturas
olham
a
cidade
crescer


O barro foi amassado.

Em seguida virou pedra.

Na forma de seres vivos.

Eles estão lá.

Atentos.

No alto das torres da Catedral de Notre-Dame de Paris.

Onde assistem a cidade crescer.

Cada vez mais.

No horizonte com fim.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Concrecoisa Aldravia IV


poeira
ajuntada
é
memória
de
alguém


No começo Ele era grão.

Depois Eles viraram grãos.

E os grãos foram transformados e retransformados.

Até ganhar a forma de poeira.

Com o vento, a poeira ganhou destino.

Aqui, ali e acolá.

Até um dia acumular no dorso do tempo.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Concrecoisa Aldravia III


cada
um
vive
no
seu
quadrado

Blizeu mora, desde sempre, numa gruta no sertão baiano.

Certa feita, ao ser entrevistado pelo jornalista Zaiam, conhecido operário das letras da Gazeta Mundão de Deus, afirmou que “o segredo para ser feliz está dentro do quadrado que cada um escolheu ter”.

E completou, numa outra perspectiva, mostrando que "a prisão é o quadrado do infeliz".

A reportagem bombou, fez Zaiam ganhar o Prêmio Esso e deixou Blizeu conhecido nacionalmente.

Tirlina, assinante da Gazeta Mundão de Deus, gostou mais que demais da reportagem sobre o quadrado da felicidade.

Passado um mês, estava ela morando num apartamento em Barcelona.

E o seu quadrado da felicidade foi completado com as pinturas abstratas, todas cubistas, de César Rasec.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Concrecoisa Aldravia II


rascunho
da
vida
engana
destino
final

Liduco viveu no mundo da fantasia ao caminhar na criminalidade.

Ele acreditava que ia se dar bem para o resto da vida.

Dizia para os comparsas que o Brasil espelhava impunidade por meio das instituições.

E mostrava esse entendimento nos noticiários das rádios, dos jornais, das revistas, das emissoras de televisão e dos sites.

Para Liduco, o Brasil sempre foi um rascunho de nação, um país que se afastava cada vez mais da civilização.

Por isso, ele não respeitava ninguém.

Velhos, crianças, mulheres, operários e religiosos foram suas principais vítimas.

Por roubar pobres, era chamado de Papatudo.

Certo dia, encontrou pelo caminho uma bala certeira na cabeça.

Liduco morreu na hora.

No dia seguinte era dado estatístico da violência no Brasil.

E sua vida não passou de um rascunho mal planejado.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Concrecoisa Aldravia I


aniversário...
lembranças
deixadas
nas
velas
apagadas

Essas foram as palavras de Zineltom, que completava 100 anos.

Feliz com o centenário, ele olhava em cada vela uma camada da memória.

O seu sopro era uma espécie de renascimento.

E a luz que acabava de apagar era a certeza do prazer de viver.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Concrecoisa E a colher?


Dorinelson era glutão.

O seu garfo parecia uma pá de escavadeira.

Cada bocada significava um prazer sem fim.

Biritel, amigo de infância, era o cara da faca.

Como o seu pai foi açougueiro em Copecarinhanha, essa habilidade de cortar foi preservada.

Mirtiteia, prima de Biritel, era a mulher da colher.

Ela casou com Dorinelson.

Na noite de núpcias, Mirtiteia disse ao marido que a brincadeira ia começar se ele fosse capaz de tomar um prato de sopa com o seu garfo de aço.

Desesperado, ele só foi entender que existe colher no mundo quando viu a sopa esfriar.

E Mirtiteia já dormia que nem uma criança.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Concrecoisa Cabeça


Cada um sabe o que tem dentro da cabeça.

Será?

Talvez não.

Ninguém sabe o que a cabeça esconde.

Perilza, por exemplo, perdeu a cabeça por causa de um amor secreto.

Medalvina, por sua vez, perdeu a cabaça com o marido cachaceiro.

As duas eram irmãs e tinham, antes dos acontecimentos, a cabeça no lugar.

Perilza viveu a vida toda na roça.

Medalvina foi para a cidade grande depois do casamento com Bazolito.

As duas voltaram a morar juntas, na roça, depois de décadas.

Agora estavam sozinhas.

Nenhuma perdeu a cabeça por causa da estranheza da outra.

E as duas diziam para os vizinhos que a cabeça é a circunstância de cada um. 

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Concrecoisa Vida excitada


Birigó era revolucionário.

Começou sua atuação política na extrema esquerda, depois foi para o centro e em seguida para a direita.

Zirino, seu irmão, era pacato.

De uma hora para outra ingressou num movimento social de direita, depois migrou para o centro e acabou atuando numa célula de extrema esquerda.

Em casa, os dois diziam para mamãe Donetita que a vida era uma experiência de transformação que começa lagarta, vira crisálida e morre em borboleta.

Dona Donetita riu muito da militância política dos filhos e deixou cada um de queixo caído quando confessou que era a puta mais cobiçada do bordel da Vila dos Prazeres.

O segredo da vida, dizia hoje a velhinha, era a excitação da alcova.

Já que a mãe estava falando de um passado jamais revelado, Birigó e Zirino quiseram saber como ela se comportava na política.

– Meus filhos, minha política é fazer gostoso, não importa se é esquerda, centro ou direita. No fundo de tudo isso, eu sei que todos vivem em busca da excitação do poder e o meu poder é a política do prazer.

No dia seguinte, Birigó e Zirino ingressaram no Partido Anarquista.   

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Concrecoisa Rua-morada


O frio chegou mais cedo.

Um cantinho qualquer da rua era a morada que precisava.

Eu não tenho bens materiais.

Mas tenho dignidade.

A barriga pede um pedaço de pão.

O outro que caminha ao meu redor é a minha solidão.

Eu sou a multidão e não sou ninguém, para o outro.

Eu sou a rua.

Eu sou Cida.

A rua é Dão.

Eu na rua sou invisível.

Uma sombra da sociedade.

Me casei com a rua.

Eu-rua.

Cida-Dão.